Cinco meses depois da implantação definitiva do ensino fundamental de 9 anos em todo o país, ainda não há consenso sobre a data de matrícula para ingresso no 1.º ano. A divergência é se as crianças devem ser matriculadas com 6 anos completos até o dia 31 de dezembro (como é a regra no Paraná) ou 31 de março (como no restante do país). Ontem, quatro anos após a aprovação da lei que criou o ensino de 9 anos, cinco entidades que representam setores ligados à educação fizeram um manifesto na Câmara Municipal de Curitiba pedindo a retirada de um projeto de lei, de autoria do senador Flávio Arns (PSDB-PR), que tramita no Congresso Nacional. O projeto estende para todo o país a regra que vale no Paraná (leia mais no quadro). A Comissão de Educação da Câmara Federal realiza hoje, às 15 horas, uma audiência pública sobre o assunto.
O projeto de Arns prevê a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e vai contra uma resolução do Conselho Nacional da Educação (CNE), mas foi aprovado por unanimidade no Senado no ano passado e agora está na Comissão de Educação da Câmara. A professora do departamento de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Andréa Caldas, representante do Fórum Paranaense em Defesa da Escola Pública (uma das entidades responsáveis pelo manifesto, ao lado de três sindicatos e uma associação de escolas), diz que a sociedade não foi ouvida. "O que nos choca é que há implicações pedagógicas. Não dá para admitir crianças com 5 anos de idade no ensino fundamental quando deveriam estar na educação infantil. Isso é acabar com a infância", diz.
Para o deputado federal Ângelo Vanhoni (PT-PR), que preside a Comissão de Educação na Câmara, não é possível retirar o projeto em tramitação. "Só compete ao autor. O que nos compete é escutar a sociedade civil e vamos fazer isso a partir de amanhã (hoje). A tramitação seguirá seu curso, inclusive com possibilidade de emenda contrária ao que prevê o projeto", afirma.
Já o senador Flávio Arns (PSDB-PR) ressalta que ouviu diversos setores da sociedade, incluindo promotores do Ministério Público de vários estados, pais e pedagogos. Arns diz que a resolução do CNE é inconstitucional. "Outros estados estão tendo de buscar na Justiça o direito à matrícula", afirma. No Paraná, desde 2007 é possível a matrícula no 1.º ano do ensino fundamental com 6 anos incompletos. A possibilidade se deu após algumas decisões judiciais. Em 2009 passou a vigorar uma lei estadual com o mesmo teor.
De acordo com a promotora de Justiça Hirmínia Dorigan de Matos Diniz, que coordena o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Proteção à Educação do MP-PR, a Constituição Federal não estabelece corte etário e diz que a educação infantil vai até os 5 anos de idade. "No Paraná, a decisão judicial que vigora é uma interpretação da Constituição", afirmou em nota enviada por e-mail.
Já a secretária da Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Maria do Pilar Lacerda, entende que o Paraná desobedece o CNE, que tem função deliberativa em âmbito nacional. A secretária ressalta que o MEC vai pedir aos deputados federais a não aprovação do projeto apresentado por Arns. "Com a ampliação da obrigatoriedade de ensino da educação básica, dos 4 aos 17 anos de idade, que deve ocorrer até 2016, esta questão deve ser resolvida", afirma.
Fonte: Gazeta do Povo (12/05/10)
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