A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê o fim da reeleição para os cargos da Mesa Executiva da Assembleia Legislativa não deve ser votada antes da eleição de 3 outubro, quando a maioria dos deputados busca novo mandato.
A demora acontece por conta da falta de interesse do relator, o líder da bancada do PSDB, deputado Ademar Traiano,
em colocar a matéria em votação. Apresentada no final de maio, com o apoio de 35 dos 54 parlamentares,
a PEC segue engavetada há mais de três meses à espera de um parecer do relator sobre sua constitucionalidade.
A proposta surgiu na esteira da crise vivida pela Assembleia, após a avalanche de denúncias envolvendo
a administração da Casa, acusada de contratação e desvio de salários de funcionários
"fantasmas", em esquema que segundo o Ministério Público, teria desviado pelo menos R$ 100 milhões dos
cofres do Legislativo. Pela PEC, os deputados que ocupam cargos presidente, vice e secretários da Mesa Executiva da
Assembleia, com mandato de dois anos, não poderiam concorrer novamente na mesma legislatura. A regra repete norma já
prevista na Constituição Federal, que proíbe a reeleição dos ocupantes dos cargos de direção
da Câmara Federal e Senado.
Pelo regimento interno da Assembleia, após a publicação da PEC
no Diário Oficial da Casa, a Comissão Especial formada para analisá-la tem prazo máximo
de vinte dias para apresentar seu parecer. Apesar de ter sido publicada em junho, porém, a proposta não saiu
do lugar. Cobrado no início de agosto, após o recesso de julho, Traiano alegou que não teve tempo de
fazer por estar ocupado demais com a campanha eleitoral.
Na segunda-feira (30) os deputados petistas Elton
Welter e Tadeu Veneri, apresentaram requerimentos para cobrar a apresentação do parecer. "Já passou mais
de 40 dias do prazo em que deveria ter sido apresentado o relatório", disse Welter. "Esta é uma proposta fundamental
para que possamos oxigenar as decisões na Assembleia, e oferecer uma resposta que a sociedade exige", disse Veneri.
No requerimento, Veneri pediu que a Mesa Executiva estabelecesse prazo de 24 horas para Traiano apresentar o parecer.
Do contrário, cobrou do presidente da comissão, deputado Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), indicasse novo
relator. Romanelli alegou que o tucano pediu vinte dias para apresentar o relatório, a partir de parecer da assessoria
legislativa da Casa.
O peemedebista se diz favorável ao fim da reeleição. Mas até agora
tem dado cobertura à atitude de Traiano de protelar a votação. A demora seria uma estratégia para
evitar que o assunto venha ao plenário antes das eleições de outubro. A avaliação é
de que se ficar para depois, a PEC dificilmente será votada e aprovada, pois os novos parlamentares eleitos já
estarão em plena disputa pelos cargos de comando da Casa.
Tudo indica que é isso que deve acontecer.
Traiano sequer apareceu na sessão de segunda-feira (30), no plenário. Em seu gabinete, a informação
era de que ele estaria em reunião fora da Assembleia. Na semana que vem, por conta do feriado de 7 de setembro, que
cai na terça-feira, a Casa deve suspender os trabalhos. E nas duas semanas seguintes, em razão da proximidade
da eleição, dificilmente haverá quórum para votar qualquer matéria polêmica. Por
se tratar de mudança na Constituição, a PEC depende de quórum qualificado de dois terços,
ou 33 votos.
Costumes - Os defensores da PEC apontam que o fim da reeleição é
decisivo para mudar os costumes internos no Legislativo. Desde 1999, quando o então deputado Aníbal Khury morreu,
a Assembleia teve apenas dois presidentes: Nelson Justus (DEM) e o atual presidente do Tribunal de Contas, Hermas Brandão,
que se revezaram no cargo graças a possibilidade de reeleição indefinida. Tanto Justus quanto Hermas
Brandão mantiveram na direção-geral da Casa, Abib Miguel, que já ocupava o cargo desde a época
de Khury, e é apontado pelo Ministério Público como o "cabeça" do esquema que teria desviado mais
de R$ 100 milhões dos cofres do Legislativo. Preso em abril e libertado após pouco mais de 40 dias, Bibinho,
como é conhecido, foi novamente detido na noite da quinta-feira (26).
Fonte: Jornal do Estado (30/08/2010)
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