11/06/2010

Transparência é uma coisa, dossiê é outra

Gustavo Fruet , deputado federal do PSDB-PR

Depois das denúncias envolvendo pessoas ligadas à campanha do PT para a Presidência da República em um suposto dossiê contra o pré-candidato José Serra, o deputado federal Gustavo Fruet (PSDB-PR) afirmou que entrará com medidas em diferentes órgãos para apurar o caso. Em entrevista à Gazeta do Povo, Fruet, que é líder da minoria na Câmara dos Deputados e membro da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional, explicou que medidas são essas e afirmou que os dossiês não podem ser confundidos com transparência. Confira os principais trechos:

Quais são as medidas que o sr. pretende propor?

Primeiro é bom deixar claro que o que está acontecendo é uma banalização dos dossiês. As medidas que vamos propor têm como objetivo servir de freio. O segundo ponto a ser destacado é que o Idalberto [Matias de Araújo, sargento da Aeronáutica acusado de participar de uma central de dossiês articulada por pessoas ligadas à campanha do PT para a Presidência da República] tem, na história recente, pelo menos quatro participações em episódios de investigações sigilosas não oficiais, como a Operação Satiagraha [em que atuou ao lado do delegado Protógenes Queiroz na investigação que acabou levando o banqueiro Daniel Dantas para a prisão], o escândalo de Waldomiro Diniz [ex-subchefe da Casa Civil ] e Carlinhos Cachoeira [empresário de jogos] e as escutas dos ex-deputados André Luiz e Bispo Rodrigues, que depois acabaram renunciando. Ele, inclusive, já prestou depoimento na Câmara. Fica claro que é recorrentemente contratado por quem quer fazer análise de fontes não abertas.

E quais serão as medidas propostas?

São quatro. A primeira é tentar ouvir tanto o Idalberto quanto o delegado [aposentado]da Polícia Federal [Onésimo de Souza, também apontado como participante do suposto dossiê contra José Serra] na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência [do Congresso Nacional]. Eu digo tentar porque a comissão não tem poder de convocação, podemos apenas convidar. Outra frente é propor à Polícia Federal que abra um inquérito para investigar. Só para se ter uma noção, até hoje a Polícia Federal não identificou os envolvidos no episódio dos aloprados [em que integrantes da campanha petista foram flagrados com quase R$ 2 milhões, que seriam supostamente usados para comprar um dossiê contra Serra, que neste ano disputava o governo de São Paulo]. Mas quem estava no escândalo? O Benedito [de Oliveira Neto], que é dono de uma empresa [a companhia de eventos Dialog] que hoje presta serviços para o governo Lula. A terceira medida é complementar a representação proposta pelo PPS na Procuradoria da República e a quarta é levar o caso ao Ministério Público Eleitoral, já que há indícios de crimes eleitorais, inclusive o uso de práticas abusivas, como a utilização de recursos.

Os dossiês, então, já viraram praxe nas corridas eleitorais?

Eu não tenho dados objetivos, números ou pesquisas que falem de suas consequências, mas eles são usados sim. É preciso fazer, aqui, uma diferenciação. Uma coisa é trabalhar com dados públicos, outra é usar dados que não se sustentam e que vão contra a legalidade.

O que o sr. quer dizer é que uma coisa é transparência, outra é dossiê?

Isso mesmo, é importante diferenciar. Hoje a transparência é um caminho sem volta, alguns podem até questionar, mas o fato é que ela traz dados públicos, diferentemente do dossiê, que é ilegal e forjado. Transparência é uma coisa, dossiê é outra. Ele traz informações que nem sempre são verdadeiras, tem até mesmo um caráter de terrorismo, um fator de intimidação. E também há a questão de como essas informações são obtidas, de forma ilegal, com escutas ilegais. Sempre se questionou o uso indevido da estrutura do Estado. Neste caso isso fica claro, a estrutura é usada para obter informações, por pessoas que têm acesso aos dados.

Quando as medidas serão propostas?

A previsão é entrarmos com as representações até quarta-feira. Amanhã falo com Sérgio Guerra, presidente do PSDB, e a intenção é que os três partidos de oposição [DEM, PSDB e PPS] trabalhem juntos nisso, até para ficar institucional.

 

 

Fonte: Gazeta do Povo (06/06/10)

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