Os dois principais candidatos ao governo do estado, Beto Richa (PSDB) e Osmar Dias (PDT), não falam em números quando o assunto são os cargos comissionados na administração estadual. Os dois falam em ocupar os postos de comissão com servidores "capacitados", "eficientes", "competentes", "com seriedade" e "preparados". Mas não dizem quantos funcionários desse tipo seriam necessários ao governo.
Os cargos em comissão são preenchidos sem realização de concurso público. O excesso de cargos desse tipo é apontado por especialistas como facilitador do nepotismo (contratação de parentes) e do apadrinhamento político, além de trazer ineficiência à administração pública e de aumentar as chances de corrupção. Foi através de funcionários em cargos comissionados, por exemplo, que aconteceram os escândalos na Assembleia Legislativa do Paraná, de contratação de servidores fantasmas e desvio de dinheiro público.
Embora não falem em números, Richa e Osmar trocam farpas sobre o assunto. Richa diz que irá avaliar o tamanho do estado, quantos cargos em comissão tem o atual governo e enxugar a máquina. "Só quero garantir o seguinte: eu não vou aparelhar a máquina pública com a companheirada sem observar a competência, preparo para exercício da função e a seriedade", afirma. "Não quero fortalecer o meu partido à custa do dinheiro do contribuinte", completa, em alusão ao PT, partido que apoia o adversário.
Osmar rebate dizendo que não pensa em contratar a "companheirada". "Penso em contratar pessoas que possam servir a sociedade com eficiência." O pedetista diz que a nomeação de cargos comissionados tem de levar em conta a capacidade de trabalho que tem a pessoa que vai exercer esse cargo em comissão. "A gente tem que pensar no quadro de servidores como um todo. Não podemos especificar: vamos reduzir cargos comissionados. O que temos que fazer é ocupar de forma eficiente todos os servidores." Osmar propõe uma universidade do servidor para qualificar, capacitar e profissionalizar o funcionalismo.
A Secretaria de Estado da Administração e da Previdência não forneceu ontem o número de cargos comissionados no estado. Levantamento de 2008 mostrava que o governo do estado possuía 3,6 mil cargos comissionados, o que equivale a 2% do número total de servidores.
"Usina de corrupção"
A administração pública precisa ter cargos comissionados, só que o número tem de ser reduzido. Essa é a visão do advogado Romeu Bacellar, que foi presidente do Instituto Paranaense de Direito Administrativo, e de Fabiano Angélico, coordenador de projetos da ONG Transparência Brasil. Angélico chega a afirmar que os postos de comissão são "uma das principais usinas de corrupção no país". Ele explica que a prática é uma moeda de troca que causa corrupção e descrença da sociedade nas instituições políticas.
Outro malefício, segundo o coordenador da Transparência Brasil, é o efeito negativo dentro do próprio órgão. "Aquele servidor concursado começa a perceber que o mérito tem menos valor do que você ser amigo de um líder político. Se o cara quer ascender na carreira, ele vai ter que se filiar a partido político e entrar em círculo de politicagem." Segundo ele, isso contamina o trabalho técnico bem feito.
Com compromisso
Angélico afirma que, durante a campanha eleitoral, os candidatos precisam indicar um número de cargos comissionados que pretendem pôr no governo, caso eleitos. "É preciso indicar uma meta que se pode cobrar efetivamente.", afirma.
O advogado Romeu Bacellar diz que não tem visto nenhum candidato falar sobre a profissionalização da função pública e sobre a necessidade de melhorar a condição de prestação de serviço. Ele aponta que é preciso extinguir a "cordilheira" de cargos comissionados e deixá-los a funções estritamente de confiança. "Agora são poucos os órgãos públicos que ainda prestigiam os cargos efetivos", afirma.
Bacellar exemplifica que a raiz do nepotismo é o cargo comissionado. "Sempre atacamos os efeitos e nunca a causa." O advogado defende a valorização profissional dos servidores efetivos e critérios de promoção.
Fonte: Gazeta do Povo (20/08/2010)
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